CRÓNICAS DE BARCELOS ( 12 )

UM DESVIO COLOSSAL À DIREITA

Aparentemente, a maioria dos Portugueses dorme tranquilamente, depois de escolher para o Governo deste Pais os Partidos e Ministros mais inteligentes, que garantem um desvio colossal à direita nos próximos quatro anos.

Ainda não tínhamos recuperado das promessas eleitorais de que não iam subir os impostos sobre os rendimentos do trabalho das famílias, nem desculpar-se com o Governo anterior, quando alguém, de forma inteligente, veio esclarecer que havia um desvio superior a mil milhões de euros, que, apesar de mais ninguém o ver, mesmo a Troika, necessitava de ser tapado com 50% do subsídio de natal dos portugueses.

Mas, logo após tamanha demonstração de inteligência, logo outro não menos inteligente membro do governo anunciava a descida da TSU em cerca de 4% para as empresas, buraco a cobrir pela subida da taxa do IVA.

Na verdade, essa descida, dizem aquelas mentes inteligentes, vai permitir o relançamento da economia, o investimento das empresas e a criação de novos postos de trabalho.

Considerando que a maior parte, superior a 95%, das empresas portuguesas tem menos de 20 trabalhadores, com salários médios entre o salário mínimo ( 485,00 € ) e os 600,00 €, qualquer pessoa menos inteligente descobre que aquela descida da TSU corresponde a cerca de 24,00 € por mês para um trabalhador que ganhe 600,00 € ou 19,4 € para um trabalhador que ganhe o salário mínimo.

Ora, considerando uma empresa que tenha entre 10 a 20 trabalhadores, estamos perante uma poupança que se situará entre os 194,00 € e 480,00 € com a redução da TSU em 4%!

Mas, estupefactos com a dimensão de tais medidas inteligentes, os portugueses foram ainda confrontados com outras ideias não menos inteligentes de congelamento de salários e de carreiras, despedimentos facilitados a troco de nada, privatizações, cortes na saúde e na educação, nas pensões, aumento de preços nos transportes e em geral pelo aumento do IVA e até a venda de um BPN pelo preço mais inteligente até hoje conhecido nos meios financeiros.

Sobre os rendimentos do capital e sobre as transacções bolsistas e especulativas nada ouvimos, nem nenhuma medida inteligente foi tomada. Melhor, foi tomada a medida mais inteligente, precisamente a de não tomar medida alguma!

É que é inteligente a medida de não tomar medida alguma enquanto a generalidade dos portugueses, classe média e menos afortunados, conta os euros ao longo do mês e até os vê desaparecer antes, enquanto os rendimentos do capital continuam a ser taxados abaixo do rendimento do trabalho, sem sofrer qualquer aumento.

Em recente artigo de opinião publicado no New YorK Times, Warren Buffet, dono e CEO da Berkshire Hathaway ( dona da Moody’s ) e terceiro homem mais rico do mundo, disse algo que aquelas pessoas inteligentes deveriam ponderar: “ de acordo com uma teoria que tenho ouvido, eu devia recusar-me a investir quando as taxas são muito altas nos ganhos de capital e dividendos. Mas nunca me recusei e os outros investidores também não… ainda estou para ver alguém fugir de um bom investimento por causa dos impostos sobre o lucro previsível. As pessoas investem para ganhar dinheiro e os impostos potenciais nunca as assustaram. E para aqueles que afirmam que impostos mais altos impedem a criação de emprego, lembro que houve um aumento de 40 milhões de empregos entre 1980 e 2000. E todos sabemos o que aconteceu depois: impostos mais baixos e menor criação de postos de trabalho”.

Vê-se logo que este milionário não tem nada de inteligente e que não teria lugar neste Governo, sobretudo ao concluir pela recomendação de que devem ser descidas as taxas de IRS e aumentadas por escalões as taxas de impostos sobre os rendimentos do capital.

É claro que virá um Ministro Inteligente afirmar que “ um perigoso comunista se pode encontrar em qualquer lado”!

Horácio Barra

Publicado no Jornal “Barcelos Popular”  de  18 de Agosto de 2011